Reflexões sobre o Documento 109
Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2019/2023)
O Anúncio do Evangelho de Jesus Cristo
Neste texto compartilham-se algumas reflexões a partir do capítulo 1 do Documento 109, tendo como luzes também a Palavra de Deus, o texto base da Campanha da Fraternidade (CF) de 2020, a Teologia da presença, segundo os estudos de Jacil Rodrigues Brito e outros Documentos da Igreja como Evangelii Gaudium (EG) e o Programa Missionário Nacional (PMN) da CNBB. Espera-se que possa ajudar a quem está estudando esse texto tão importante e atual da nossa Igreja, que iluminará nossas ações nos próximos quatro anos.
Segundo o Documento 109, o mundo urbano do jeito que conhecemos hoje, é sim um lugar da presença de Deus, sendo um espaço aberto para a vivência do Evangelho (Mt 18, 20). E cabe à Igreja, vendo o jeito de ser e viver a vida e a fé (entendida aqui como uma expressão cultural) das pessoas, se fazer presente, acolhendo e questionando os contravalores quando necessário. Para isso, ela deve voltar-se sempre para sua fonte inesgotável, o Evangelho, tendo Jesus Cristo e a misericórdia como pontos de partida.
E nós também. Nosso encontro pessoal com Cristo deve provocar em nós a conversão de vida, nos fazer querer ser discípulos. Viver o Reino de Deus, que é o centro da vida e da pregação de Jesus, é um dom, assim nós, que desejamos viver o discipulado de Jesus, acolhemos esse Reino por meio da nossa fé. Mas a fé não se pode pressupor, nem impor.
Porém, eu sei e você também sabe, que o Reino é de Deus. A iniciativa é Dele. A nós, como parte dessa Igreja, cabe construir com a ajuda transformadora de Cristo um Reino de amor e justiça para todos e todas. A Igreja é a comunidade de discípulos missionários de Cristo, desse modo somos chamados a anunciar o amor de Deus, amor esse, vivido por meio de Jesus Cristo e que deve ser experimentado nas comunidades.
Assim sendo, a Igreja ensina-nos a voltar nosso olhar para as primeiras comunidades, onde percebemos a presença do amor fraterno, da partilha, do respeito, do diálogo numa profunda conversão à Cristo e à missão. Voltar ao essencial, ao coração do Evangelho, a caridade, princípio e fim de todas as coisas. Já estudamos e aprendemos com a Campanha da Fraternidade de 2020, cujo lema foi Viu, sentiu compaixão e cuidou dele, que “a fé nos leva necessariamente à ação, à fraternidade e à caridade” (CF, n.7). Assim, é sempre bom voltar à fonte bíblica e fazer uma releitura da prática buscando o rompimento com hábitos que já não estão mais sendo favoráveis, nem a nós nem aos outros.
Além disso, ao olhar para as comunidades primeiras, entendemos que podemos aprender com elas como interagir com a cultura urbana, mesmo que essa cultura seja moderna, ou seja, a que vivemos hoje. Pois para elas os desafios de outros tempos eram tão importantes como os de hoje e só conseguiram vencer ou ultrapassá-los pela força do Pentecostes, “a experiência da presença viva de Deus no meio do povo (...). Presença essa que anima, dá força no caminho e direciona o olhar da comunidade para frente, para o futuro” (BRITO, 2005, p. 55). Assim vemos que o agir dos apóstolos, ou seja, a missão deles, estava em sintonia com o próprio Cristo. Eram sinais da presença de Deus no mundo.
A missão vem de Deus e hoje nós devemos, por meio do Espírito Santo, levar a todos e a todas a mensagem do Evangelho. Não só mostrando o amor de Jesus, mas vivendo-o, testemunhando-o: “olhem como se amam” (At 2). Logo, nossas comunidades devem ser abertas, acolhedoras, misericordiosas e sinal da presença de Deus no mundo. Devem ser testemunhas do Ressuscitado à luz do Evangelho e não de si mesmas, pensando globalmente e agindo localmente, sem perder a perspectiva do todo. O que deve importar a nós é a perseverança e a fidelidade, “não importa a vós saber os fins do tempo, mas recebereis o Espírito Santo” (At 1,7-8).
Atualmente, também em nossas comunidades, vivemos intensamente a cultura urbana na qual vemos o individualismo cada vez mais crescente, a indiferença em relação ao outro e ao seu sofrimento, o uso desenfreado das novas tecnologias, a globalização, além do relativismo, inclusive da fé. Portanto, é preciso compreender a mentalidade urbana atual, sabendo que ali também Deus está presente, porque segundo o apóstolo Paulo, “todos somos Templo do Senhor, Habitação do Senhor” (BRITO, 2005, p. 56).
Esse é o contexto em que os missionários devem atuar. Não se pode fechar os olhos para a pobreza cada vez maior, o desemprego, a solidão, a violência em todos os sentidos. Sabemos que muitas vezes tudo isso contrasta com os valores da Palavra de Deus. Um dos desafios para evangelização é que as comunidades sejam unidas por interesses comuns e subjetivos, não só por espaços geográficos. É preciso ter equilíbrio e esperança no Deus da vida. Como hoje poderíamos adentrar nesses espaços geográficos e existenciais? Como modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse do pensamento, os modelos de vida?
O Documento 109 traz luzes. Mostra que talvez seja lá, nas pequenas comunidades, onde as amizades verdadeiras ainda sobrevivem, em que se aprofunda, na adoração comunitária de Deus, o caminho que deve ser percorrido. Lá onde ainda se pode partilhar a fé, as experiências de trabalho, em que um alimenta o outro no amor, na amizade concreta, por meio do Senhor. Lá, vivemos a presença de Jesus, pela repetição de todos os gestos aprendidos com Ele e de suas palavras, independentemente de qualquer modo, meio ou circunstância (Cl 3, 9b-11). É na comunidade cristã que fazemos a experiência especial e particular da presença de Deus, porque Deus se faz presente por meio de Jesus, “é um de nós entre nós, assume a nossa humanidade como lugar de sua habitação” (BRITO, 2005, p. 62).
Na vivência do amor de Deus que cria, cuida e vai ao encontro, como rezamos na Oração Eucarística IV. Compreendemos que a missionariedade nasce da alegria do encontro, “de sermos plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora” (EG, n.8). A evangelização não tem gavetas. O modo de ser Igreja é ser missionária, “o amor que brota da Trindade não pode encerrar-se em si mesmo, mas expande e transborda em todos e sobre todos” (PMN, 2019, p.32).
Desse modo, as pequenas comunidades devem priorizar a ação evangelizadora que, através dos trabalhos comunitários e pastorais, as leva a viver sua vocação e missão, em comunhão e solidariedade. Urge a Igreja em saída, que anuncie o Evangelho a todos sem excluir ninguém (Lc 2). O Papa Francisco nos ensinou um verbo novo para que nós, a comunidade, possamos nos adiantar, ou seja, primeirarse para envolver, para acompanhar, para frutificar e festejar. Somos nós quem deve nos adiantar, desinstalar e ir onde o povo está, dentro da realidade na qual ele está inserido, sem medo, pois o Espírito Santo, também se primeirea. É o Papa quem nos diz: “ousemos um pouco mais na iniciativa!” (EG, n. 24).
“Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo” (EG, n. 273). Portanto, devemos recorrer às origens do cristianismo, de maneira inculturada, com o comprometimento e a participação de todo o povo de Deus na vida e na missão da Igreja, pois a “vida com Jesus é muito mais plena e, com Ele, é mais fácil encontrar o sentido para cada coisa. É por isso que evangelizamos” (EG, n. 266). Por fim, “saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo!” (EG, n. 49)
Valdiene Aparecida Gomes
Catequista na Paróquia Cristo Rei (EPAC) – Ipatinga/MG
Cursou a Formação de Coordenadores de Catequese – CNBB/Leste II
Cursou Bíblia em Comunidade – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
Professora da Rede Pública de Ensino e Mestra em Linguagens e Letramentos pela UFMG
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém (Ed. Revista). São Paulo: Paulus, 2004.
BRITO, Jacil Rodrigues de. O Senhor está neste lugar e eu não sabia: teologia da presença. São Paulo: Paulinas, 2005.
CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.
______. Programa Missionário Nacional 2019-2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.
______. Campanha da Fraternidade 2020: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2019.
PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. 1ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2013.
Siglas usadas no texto:
CF Campanha da Fraternidade
EG Evangelii Gaudium
PMN Programa Missionário Nacional
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