Reflexões sobre o Documento 109 – Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2019/2023)
Olhar de Discípulos Missionários
Neste capítulo somos levados a contemplar o mundo em todas as suas belezas, mas também em todas as sues problemas, para continuar anunciando o mesmo Evangelho. Nós, somos a Igreja e a Igreja somos nós, portanto, devemos acolher, contemplar, discernir e iluminar a vida, nas suas expressões culturais, sociais, políticas e éticas com a Palavra de Deus.
É como discípula missionária que a Igreja deve olhar para a realidade. Desse modo, o Documento 109 ensina a Igreja a adotar uma postura de compreensão do mundo como discípula e servidora de Cristo. E atenta às profundas transformações, à mudança de época, é que a Igreja e nós, devemos nos manter fiéis ao entendimento da vida, da família e da realidade. Compreendendo essa realidade a Igreja poderá interagir melhor para fazer com que o Reino de Deus cresça.
No primeiro capítulo, vimos que é preciso reconhecer a presença de Deus em nosso contexto histórico, no qual o mundo vai se tornando uma grande cidade, onde tudo está interligado e próximo. Assim, cabe à Igreja ao entender que Deus permanece presente em meio a tudo o que acontece, por meio do Espírito Santo discernir e nos ajudar a compreender o que é luz e o que é sombra, a primeira como sendo um sinal do que o Senhor está realizando e a última como as negações do Reino de Deus.
O Estudo da Campanha da Fraternidade de 2020, lança muitas luzes sobre a realidade que vivemos hoje. A reflexão do texto base nos ajuda e muito, a entender qual deve ser o nosso olhar para essa realidade e também a ver as sombras que vivemos e às vezes que até colaboramos para que elas aconteçam. Ver, sentir compaixão e cuidar, com esse olhar desperto pela CF vamos ver o que o nosso tempo atual traz de sombras:
É sombra as atitudes individualistas, em que a satisfação de si se torna critério que determina tudo, reduzindo o outro à sua utilidade de oferecer algo. Segundo o texto base da CF, tal individualismo está tão forte e presente que corremos o risco de não ver a vida mais como “dom e compromisso, mas como um peso ou como algo de que a pessoa possa dispor a seu bel prazer” (CF, n. 52).
É sombra a redução da função oficial do Estado, que prejudica a dignidade das pessoas e enfraquece o exercício dos direitos humanos. Faz com que percamos a compreensão de que ao ignorar os direitos humanos abrimos “brecha para o perverso caminho da intolerância política, religiosa e cultural, raiz de fundamentalismos, de preconceitos e de discriminações” (CF, n. 52). Segundo ainda os estudos da CF deste ano, o Estado se preocupa mais com os aspectos econômicos do que com a vida e cuidado com as pessoas, há que se ter um equilíbrio entre a economia e o social, quando o Estado se omite em relação às políticas públicas ele “se equipara àqueles que promovem a morte como nos casos de guerra” (CF, n. 55).
É sombra o consumismo, pois tudo é feito para ser consumido o mais rápido possível, para logo ser substituído. Acabamos também por transformar as pessoas em objetos descartáveis, “é a mercantilização da vida, em que o ser humano passa a ser avaliado pelo o que produz” (CF, n. 52). Quem pode consumir, consome, quem pode comprar, compra. E quem não pode? Toda essa individualização se conecta a outros fenômenos como a corrupção, comércio de drogas, à violência, legalização da morte, os poderes paralelos e à fragilização da família. Você consegue perceber essa ligação?
É sombra a pluralidade, quando oferece a possibilidade de escolha que leva à morte e ao sofrimento, impulsionada também pelo individualismo e consumismo, que muitas vezes alimenta o ódio e destrói vidas. É sombra também, ambientes religiosos que permitem à pessoa tornar-se a si o critério absoluto para a escolha de um caminho religioso, fechando-se ao mistério de Deus.
É sombra também quando se assume posturas abandonadas pelo próprio Jesus, ao fazer certas interpretações da Palavra de Deus, como se pode ver hoje com as fake news: “mesmo nas media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia” (CF, n. 50), esquecendo-se do oitavo mandamento de Deus.
Ainda o é quando faz de Deus e da Igreja soluções financeiras e quando fundamentam preconceitos que levam à violência. A imagem do Deus da prosperidade que se tem muito nos tempos atuais, mostra que acreditamos que Deus “dá ao ser humano só o que é bom na vida. Tudo o que é ruim vem do Demônio” (SOARES, 2012, p. 30), ou seja, não há prosperidade porque não buscam a Deus e não porque de algum modo, o “projeto de Deus foi rompido pela injustiça humana” (SOARES, 2012, p. 31).
É preciso refletir e compreender que a causa da pobreza, infortúnio e violência é pela quebra da justiça e para Deus a justiça é na mesma medida da misericórdia, porque “se Deus se limitasse apenas à justiça, deixaria de ser Deus” (FRANCISCO, 2017, p. 17). Portanto, “os pobres e os sofredores não são ‘amaldiçoados por Deus’, como reza a ‘teologia da prosperidade’, mas sim seus prediletos, seus amados e escolhidos” (SOARES, 2012, p. 31).
É sombra a mobilidade, os diversos deslocamentos que forçam as pessoas a viverem na rua. É sombra a pobreza, gerada muitas vezes pelo individualismo consumista, é a vida agredida “em diversas formas, desde a fecundação até a morte natural” (CF, n.58). É sombra a crise existencial, a depressão, a solidão, a ansiedade, o suicídio, o que pode atingir a todos, a mim, a você! Sabemos que não somos e nem podemos viver como uma ilha, somos responsáveis uns pelos outros. É preciso cuidar para que a indiferença não torne a todos invisíveis em seus sofrimentos (CF, 2019).
É sombra a agressão ao meio ambiente, que também vimos nos estudos da CF. A natureza não pode ser vista, nem entendida como algo separado de nós, seres humanos, “estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos” (CF, n.59). É sombra a exploração dos recursos ambientais, a mineração sem controle. Tudo isso questiona a evangelização e a presença da Igreja nos cenários urbanos. É sombra, quando nosso olhar para nossa casa comum é de indiferença.
É sombra, o desafio enfrentado pelos jovens pela falta de referencialidade. Caminham de maneira muitas vezes extremas e outras vezes ingênua, diante disso, a verdade é relativizada e individualizada. Ficam alheios, o que os tornam demandas fáceis para os oportunistas do mercado, “atraindo os jovens para uma mentalidade permissiva disfarçada de progresso cientifico. Na verdade, são propostas que excluem as pessoas e descartam vidas inocentes” (CF, n.48).
Em nosso país, é urgente a redescoberta da autêntica democracia que se constrói através da justiça social, da participação, das garantias institucionais, do bem comum, da liberdade de expressão e de respeito às diferenças. Esses desafios apresentados serão enfrentados, segundo Documento 109, à medida em que nos unamos com os irmãos de outras igrejas, bem como outros que percorrem caminhos diferentes de fé e a todos os homens e mulheres de boa vontade. Não podemos ficar fechados em nós mesmos.
Segundo o texto base da CF 2020 todas essas sombras e algumas mais são formas de sofrimento que “mostram, em primeiro lugar, que a vida é continuamente agredida” (CF, n. 67), diante disso, nós cristãos e missionários não podemos nos calar e ficarmos indiferentes. Devemos a partir do exemplo do Samaritano, não só olhar, mas se aproximar, se compadecer e se colocar a serviço do cuidado às pessoas. Não podemos permitir que nosso olhar de indiferença sobreponha à misericórdia, à esperança e a ação que ela nos anima a fazer.
Mas nem só de sombras vivem as grandes cidades, há muitas luzes, porque não podemos ofuscar nossa fé só com olhares de sombra. A luz nos guia sempre!
É luz, a nossa dignidade irrenunciável e insubstituível, feito da obra criadora de Deus, que mesmo em meio a tanta situação ruim, supera a fragilidade da vida, realça a beleza e a alegria de viver (CF, 2019). É luz a pluralidade, na medida em que permite à pessoa exercer o dom da liberdade e escolher em meio às múltiplas variáveis. É luz, a variedade de propostas religiosas quando essa experiência é fruto de uma escolha livre e consciente que leva ao diálogo inter-religioso, ecumênico e dos “jovens de todo o setor da juventude nas dioceses e de outras expressões juvenis, que levam adiante a campanha contra a violência e o extermínio de jovens” (CF, n. 76).
É luz, a mobilidade que nos faz ir de um lugar ao outro, nos possibilitando experimentar diferentes modos de lidar com a vida, com as diversas pastorais que não se calam diante dos desafios impostos pela realidade (CF, 2019). São luzes a resistência e a resiliência, porque não se deixam levar pelas coisas que degradam a vida e a natureza. É importante, que a pesar do contexto sombrio, apresentado no capítulo 1 do Documento 109, há muitas pessoas que se dedicam à construção do Reino, “são animadores o empenho, a dedicação e o exemplo de Bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas e inúmeros cristãos leigos e leigas, que destemidamente, dão testemunho do Evangelho da vida em situações desafiadoras que ameaçam a vida e a dignidade humanas” (CF, n. 78). Todos esses e tantos outros mais, ao contrário, em meio à diversidade, usa de criatividade para descobrir novos caminhos para reconstruir a vida e a paz.
As igrejas particulares estão sendo estimuladas a darem passos em direção a um novo jeito de evangelizar, a assumir uma maneira de valorizar as luzes e assumir “o olhar solidário capaz de cuidar, como o modo de ser no mundo, nos permite ir além do egoísmo e da indiferença” (CF, n. 81). Segundo o Papa Francisco, no Documento 107, é urgente que nossa Igreja assuma a necessidade de rever as formas e caminhos de se transmitir o Evangelho, o que tem feito surgir tentativas de tornar mais concretos os processos de iniciação cristã, em que a pessoa “aprende e se deixa envolver pelo mistério amoroso do Pai, pelo Filho, no Santo Espírito. Seu agir será outro, passando a um novo modo de vida no campo pessoal, comunitário e social” (DOC 107, n. 5).
Nos locais onde a urbanização é mais evidente, deve-se ter coragem de abandonar as estruturas já ultrapassadas que não favorecem mais a transmissão de fé, dessa fé que é luz e “possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem” (LF, n. 4). Nossa ação evangelizadora precisa ser a do discipulado e da missionariedade, deixando-se encontrar pelo Senhor e formar comunidade. O Papa Francisco nos ensina que predicar o Evangelho é levar o “poder de Deus de arrancar e demolir o mal e a violência, arruinar e destruir as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio, de modo a construir um novo mundo” (FRANCISCO, 2017, p. 123).
É o discípulo missionário que deve conhecer e reconhecer as dores apresentadas na cidade, na alegria da certeza de que ser um discípulo missionário não é um fardo, mas sim um dom (DAp, n. 28). Somos todos abençoados por conhecer o amor de Jesus e sermos enviados a anunciar a todos e todas a Boa Nova, que é o próprio Jesus Cristo, “Caminho, Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Quando assumimos esse chamado conseguimos vencer o fechamento das pessoas e nossa dificuldade de ir até o outro. Cabe ainda ao discípulo missionário adentrar na dinâmica do Bom Samaritano, como vimos na CF, ser próximo de quem sofre, dos excluídos, seguindo a mesma prática amorosa e acolhedora de Jesus.
É o discípulo missionário que deve testemunhar e anunciar a presença de Deus a todos, dizer que o Senhor está conosco na tribulação, no sofrimento, na fome, na pandemia e que não nos abandona nunca, mas que “alenta incessantemente nossa esperança em meio a todas as provas” (DAp, n. 30). O Documento de Aparecida nos interpela a sair da espera passiva dos templos e ir para proclamar o amor de Deus e diz mais, que para “nos converter em uma igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e fiéis discípulos (DAp, n. 549). Voltar ao primeiro amor sempre!
Valdiene Aparecida Gomes
Catequista na Paróquia Cristo Rei (EPAC) – Ipatinga/MG
Cursou a Formação de Coordenadores de Catequese – CNBB/Leste II
Cursou Bíblia em Comunidade – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
Professora da Rede Pública de Ensino e Mestra em Linguagens e Letramentos pela UFMG
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém (Ed. Revista). São Paulo: Paulus, 2004.
CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.
______. Campanha da Fraternidade 2020: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2019.
DOCUMENTO DE APARECIDA. Texto conclusivo da V Conferencia Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Edições CNBB, Paulinas, Paulus. 2007.
PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Lumen Fidei. 1ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2013.
______. Alegria de ser discípulo. Editado e compilado James P. Campbell. Tradução Sandra Martha Dolinsky. 2ª ed. Rio de Janeiro. Bestseller, 2017.
SOARES. Paulo Sérgio. Iniciativa de Deus e corresponsabilidade humana: teologia da graça. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 2012.
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