domingo, 3 de maio de 2020

A Igreja em missão

Este capítulo foi retirado de um site, pois compila muito bem todas as ações sugeridas pelo Documento 109 da CNBB.


4.2. Os pilares da comunidade

Encaminhamentos práticos
150. Assumir o caminho de iniciação à vida cristã, de inspiração catecumenal, com a necessária reformulação da estrutura paroquial, catequética e litúrgica, com especial atenção à catequese para a recepção e vivência dos sacramentos com crianças, jovens e adultos (sacramentos da iniciação cristã e demais).
151. Revisar, a partir dos desafios do mundo urbano, o dinamismo das comunidades eclesiais missionárias, possibilitando que o anúncio de Jesus Cristo transforme pessoas, famílias, ambientes, instituições e estruturas sociais.
152. A apresentação de Jesus Cristo necessita ser cada vez mais explicitada, não podendo mais ser considerada como tranquila e vinculada aos mecanismos de iniciação sociocultural. Daí a importância da iniciação à vida cristã, a ser disponibilizada pela Igreja, tantas vezes quantas forem necessárias, inclusive para quem já tenha recebido os três sacramentos da iniciação cristã.
153. A comunicação e o anúncio da pessoa de Jesus Cristo não podem ser apenas teóricos. É indispensável possibilitar experiências concretas da vida eclesial a partir da dimensão de relacionamento fraterno (At 2,4-5), diante de um contexto de forte individualização e consumo, inclusive do religioso.
154. Incentivar iniciativas ecumênicas de encontros fraternos e de formação bíblica em nossas comunidades.
155. Universalizar o acesso à Sagrada Escritura, assumindo-a como alma da missão (DV, n. 21). Cada pessoa não só deve ter uma Bíblia, como deve ser ajudada pela comunidade a fazer dela fonte de estudo, oração, celebração e ação.
156. Priorizar pequenas comunidades eclesiais, ao redor da Bíblia, como fruto imediato da visitação
missionária. Para tanto, é fundamental a formação de lideranças leigas que possam coordenar, com espírito de mobilização e de oração, essas comunidades.
157. Assumir a leitura orante da Palavra como o método por excelência para o contato, pessoal e comunitário, com a Sagrada Escritura.
158. Implantar centros de estudo sobre a Palavra de Deus em todas as realidades da vida eclesial, contando com o suporte dos cursos de teologia, dos seminários, das faculdades e universidades católicas.
159. Utilizar o potencial das redes sociais, desenvolver e difundir aplicativos, para que a Palavra alcance todas as pessoas em todas as situações.

4.2.2. Pilar do Pão: liturgia e espiritualidade

Encaminhamentos práticos
164. Resgatar a centralidade do domingo como Dia do Senhor por meio da participação na Missa Dominical ou, faltando essa, na Celebração da Palavra. Somente situações excepcionais podem justificar a ausência nesse momento central da vivência da fé cristã. A assembleia eucarística é considerada “alma do domingo”
(DD, n. 34 e cap. 3) e, não sem razão, entre os mandamentos da lei de Deus, está a guarda do Domingo e dos dias Santos e, razão pela qual, entre os mandamentos da Igreja, encontra-se o dever da participação na celebração eucarística nesse dia (CIgC, n.202; CIC, cân. 1246-1248).
165. Onde efetivamente não for possível celebrar a Eucaristia, realizam-se celebrações da Palavra de Deus, com os diáconos permanentes ou com ministros leigos devidamente formados e instituídos. Importa que a comunidade não deixe de se reunir para celebrar o Dia do Senhor e os momentos importantes, tanto de alegria, quanto de dor e de esperança. Para tal, seja conhecido e valorizado o recente documento 108 da CNBB: Ministério e celebração da Palavra.
166. Incentivar a piedade popular, historicamente construída e enraizada, como caminho de aprofundamento da fé e não apenas realidade meramente, cultural ou folclórica. A fé simples e encarnada deve ser acolhida e iluminada pela Palavra de Deus e orientações da Igreja. Assim, garante-se não apenas a identidade católica, como também se evita sucumbir diante das pressões mercadológicas, com a criação artificial de devoções.
167. Valorizar o canto litúrgico, o espaço sagrado e tudo que diz respeito ao belo como serviço à vida
espiritual. Nesse sentido, incentive-se a comunhão entre as pastorais da Liturgia, da Catequese, da Cultura e da Arte Sacra.
168. Respeitar o ano litúrgico nas suas especificidades, tanto no conteúdo quanto na forma. Deve-se tomar grande cuidado com celebrações peculiares realizadas para atender necessidades e interesses individuais, sem relação alguma com o tempo litúrgico em que ocorrem e que, por vezes, desfocam a importância da centralidade do Domingo e da participação na comunidade paroquial.
169. Zelar pela qualidade da homilia, cuidando para que a vida litúrgica lance raízes profundas na existência e na vida comunitária e social. “A homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De fato, sabemos que os fiéis lhe dão muita importância; e, muitas vezes, tanto eles como os próprios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e os outros a pregar. É triste que assim seja” (EG, n. 35).
170. Reconhecer que o trabalho dos meios de comunicação social de inspiração católica é um dom de Deus para a Igreja no Brasil. Suas transmissões, sobretudo das missas, atingem um enorme contingente de fiéis que não podem ir às igrejas. Pela influência que exercem nas comunidades locais e por sua importância para a catequese e evangelização, que as missas televisionadas e transmitidas pelo rádio e pela internet, estejam em conformidade com as normas litúrgicas e as orientações aprovadas e já divulgadas pela CNBB. A revisão das práticas litúrgicas, considerando a teologia e a eclesiologia do Concílio Vaticano II, poderá favorecer um grande passo para a evangelização no Brasil. Que os responsáveis acolham o acompanhamento e a assessoria das Comissões Episcopais para a Liturgia e para a Comunicação, em vista da construção conjunta de uma linguagem litúrgica que garanta a unidade na diversidade.

4.2.3. Pilar da caridade: a serviço da vida

Encaminhamentos práticos
174. Promover a solidariedade com os sofredores nas grandes cidades como sinal privilegiado a interpelar e a permitir o diálogo com a mentalidade urbana. Enquanto a cidade tende ao individualismo que acaba por excluir, a vivência do Evangelho necessita explicitamente gerar experiências de solidariedade e inclusão. Junto aos que sofrem, especialmente os que sequer têm direito à sobrevivência, a Igreja é chamada a reproduzir a imagem do Bom Samaritano (Lc 10,25-37).
175. Priorizar as ações com as famílias e com os jovens, como resposta concreta aos sínodos da família (2014 e 2015) e da juventude (2018), para que, sustentados e animados pela comunidade de fé, possam ser sal e luz, mantendo viva a esperança do Reino. A ação pastoral junto às famílias e aos jovens deve estar presente em todas as comunidades, abrindo-se espaços para diferentes formas de vivência da mesma fé.
176. Aguçar a atenção às inúmeras (DAP, n. 65 e 402) e novas formas de sofrimento e exclusão, nem sempre acolhidas pela ação caritativa e sociotransformadora até então desenvolvida. É preciso ousar ainda mais e transformar o acolhimento e a fraternidade da vida de comunidade em apoio para a resiliência e o encontro de novos rumos para a vida.
177. Integrar o contato com a Palavra de Deus, lida pessoalmente e em comunidade, com os desafios que brotam do sofrimento humano, partilhando as experiências vividas. A partir da Palavra de Deus, os discípulos missionários são estimulados a compreender e enfrentar esta realidade como um desafio à vivência da fé, pois, em cada irmão que sofre, é o Senhor sofrendo nele.
178. Desenvolver grupos de apoio às vítimas da violência, nas suas mais variadas formas, de modo especial as agredidas pela dependência química, as que perderam entes queridos em razão da violência ostensiva e as que se veem tentadas a retirar a própria vida e a de inocentes que estão por nascer, bem como todos os atentados contra a vida.
179. Encorajar o laicato a continuar o empenho apostólico, inspirado na Doutrina Social da Igreja, pela transformação da realidade a partir do engajamento consciente em todas as realidades temporais: política partidária, pastorais sociais, mundo da educação, conselhos de direitos, elaboração e acompanhamento de políticas públicas (CNBB, Doc. 107), o cuidado da natureza e todo o planeta, nossa Casa Comum. Continuar apoiando a organização do conselho do laicato nos níveis nacional, regional e local.
180. Contribuir para o resgate do espaço público da cidade como ágora e foro, lugar de encontro, convivência, deliberação e inclusão dos “não citadinos”, “meios citadinos” ou “resíduos urbanos”, de modo que se garanta para todos o direito de ser cidade (EG, n. 74-75).
181. Inserir na lista de prioridades das comunidades de fé o cuidado para com a Casa Comum, em sintonia com o magistério social do Papa Francisco. Na medida da necessidade, implantar a Pastoral da Ecologia, sob a égide da Ecologia Integral, que comporte um novo modo de estar e viver no mundo.
182. Apoiar e incentivar as pastorais da mobilidade humana em todas as esferas da Igreja, com presença junto a migrantes, refugiados, grupos nômades (ciganos, povo do mar, circenses e rodoviários) e turistas entre outros. Em um mundo que está todo em movimento, a questão migratória deve ser encarada com ânimo renovado.
183. Assumir como prioridade a promoção da paz com a superação da violência em todas as suas formas. É fundamental reconhecer que os conflitos não se resolvem simplesmente com o acesso e o uso das armas. É preciso promover a justiça restaurativa como via para a prevenção e a diminuição do agravamento de conflitos.
184. Ser a voz dos que clamam por vida digna. A comunidade, Casa da Caridade a serviço da vida, não pode abdicar desta preocupação e desta responsabilidade. Terra, trabalho e teto são as três palavras chave, expressão das preocupações centrais do Papa Francisco com a situação dos excluídos do mundo contemporâneo.
185. Firmar e fortalecer, a partir da identidade cristã, as iniciativas de diálogo ecumênico e inter-religioso, empenhados na defesa dos direitos humanos e na promoção de uma cultura de paz e “caminhar decididamente para formas comuns de anúncio, de serviço e de testemunho” (EG, n. 246).

4.2.4. Pilar da Ação Missionária: estado permanente de missão

Encaminhamentos práticos
189. Investir em comunidades que se auto compreendam como missionárias, em estado permanente de missão, indo além de uma pastoral de manutenção e se abrindo a uma autêntica conversão pastoral (DAp, n. 366 e 370). Novos lugares, novos horários, linguagem renovada e pastoral adequada às novas demandas da população são algumas características das respostas esperadas.
190. Acompanhar de perto a realidade urbana com a criação de observatórios ou organismos semelhantes que percebam os ritmos de vida das cidades, suas tendências e alterações.
191. Desenvolver os projetos de visitas missionárias a áreas e ambientes mais distanciados da vida da Igreja. Estabelecer um cronograma de visitas, de modo que se possa acompanhar o amadurecimento das pessoas e estimular a formação de novas comunidades, sempre alicerçadas na Palavra, no Pão e na Caridade. Evitar realizar visitas únicas ou pontuais, destinadas apenas a apresentar a realidade eclesial já existente.
192. Favorecer a missão e a comunhão pastoral entre as Igrejas que atuam nas grandes metrópoles brasileiras. Estabelecer caminhos para a troca de experiência, reunindo bispos, mas também agentes de pastoral que lidam especialmente com os aspectos mais desafiadores.
193. Dinamizar ainda mais as ações ad gentes com o intercâmbio além-fronteiras de discípulos e o revigoramento da experiência das Igrejas-Irmãs. Precisamos fortalecer a consciência missionária de tal modo que a missão ad gentes seja aprofundada, assumida e fortalecida nas Igrejas particulares e também em nível regional e nacional por meio de gestos concretos como oração, ajuda financeira, envio de missionários e atenção especial aos que retornam.
194. Considerar uma prioridade pastoral histórica o investimento de tempo energia e recursos com os jovens. Formar acompanhadores de jovens, promover missões juvenis em vista da renovação de experiências de fé e de projetos vocacionais e abrir espaços para que os jovens criem novas formas de missão, por exemplo, nas redes sociais (ChV, n. 240, 241 e 246).
195. Investir na presença nos Meios de Comunicação Social, especialmente nas redes sociais, deve ser um constante desafio aceito pelas comunidades e vivenciado de modo testemunhal e missionário. As redes sociais “constituem uma extraordinária oportunidade de diálogo, encontro e intercambio entre as pessoas. A web e as redes sociais criaram uma nova maneira de comunicar-se”. Como ponto de partida para falar sobre Jesus Cristo, elas devem apresentar a vida e o sentimento de pessoas e comunidades cristãs que, diante das intolerâncias e da ausência de fraternidade, sejam uma luz para todos que as acessem.
196. Valorizar, urgentemente, como espaços missionários os hospitais, as escolas e as universidades, o mundo da cultura e das ciências, os presídios e outros lugares de detenção. Em espaços assim, a presença fraterna e orante é o ponto de partida para o anúncio e a formação de comunidades.
197. Priorizar a pessoa como objetivo da ação missionária. A Cultura do Encontro deve ser o pano de fundo para a missão permanente. Percursos de acompanhamento espiritual, que contemplem cada pessoa na sua individualidade, buscando sair da lógica das massas para entrar na dinâmica do Mestre, que se põe a caminho para estar com os desanimados discípulos que voltavam para Emaús (Lc 24, 13-35), escutando suas angústias e oferecendo-lhes a luz da Palavra e da Eucaristia, são também caminhos de uma autêntica missão.
198. Implantar e aperfeiçoar os Conselhos Missionários em todos os níveis (paróquia, diocese e regional) deve ser uma meta perseguida por toda a Igreja no Brasil. Esses Conselhos sejam animadores e articuladores da acolhida e presença do espírito missionário em nossas comunidades por meio da programação, execução e revisão das ações missionárias (RM, n. 84).
199. “Promover as Pontifícias Obras Missionárias, organismo oficial da Igreja Católica, que trabalha para intensificar a animação, formação e cooperação missionária e tem como objetivo ‘promover o espírito missionário universal do Povo de Deus’”.
200. Acolher e concretizar as prioridades e projetos do Programa Missionário Nacional: formação, animação missionária, missão ad gentes e compromisso social e profético.
201. Olhar a Amazônia como um dom de Deus e, por isso mesmo, como uma responsabilidade para todos os brasileiros, mais imediata para os que lá se encontram, na certeza, porém, de que somos todos corresponsáveis.
202. Valorizar a dimensão mariana e outras formas de piedade popular na evangelização e missionariedade da Igreja, considerando que Maria foi a primeira missionária, que animou os discípulos na comunidade primitiva, com sua presença, fé e esperança. 

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023. Brasília/DF: Edições CNBB, 2019. (Documento 109)

O Anúncio do Evangelho de Jesus Cristo

Reflexões sobre o Documento 109 
 Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2019/2023)

O Anúncio do Evangelho de Jesus Cristo

Neste texto compartilham-se algumas reflexões a partir do capítulo 1 do Documento 109, tendo como luzes também a Palavra de Deus, o texto base da Campanha da Fraternidade (CF) de 2020, a Teologia da presença, segundo os estudos de Jacil Rodrigues Brito e outros Documentos da Igreja como Evangelii Gaudium (EG) e o Programa Missionário Nacional (PMN) da CNBB. Espera-se que possa ajudar a quem está estudando esse texto tão importante e atual da nossa Igreja, que iluminará nossas ações nos próximos quatro anos.

Segundo o Documento 109, o mundo urbano do jeito que conhecemos hoje, é sim um lugar da presença de Deus, sendo um espaço aberto para a vivência do Evangelho (Mt 18, 20). E cabe à Igreja, vendo o jeito de ser e viver a vida e a fé (entendida aqui como uma expressão cultural) das pessoas, se fazer presente, acolhendo e questionando os contravalores quando necessário. Para isso, ela deve voltar-se sempre para sua fonte inesgotável, o Evangelho, tendo Jesus Cristo e a misericórdia como pontos de partida. 

E nós também. Nosso encontro pessoal com Cristo deve provocar em nós a conversão de vida, nos fazer querer ser discípulos. Viver o Reino de Deus, que é o centro da vida e da pregação de Jesus, é um dom, assim nós, que desejamos viver o discipulado de Jesus, acolhemos esse Reino por meio da nossa fé. Mas a fé não se pode pressupor, nem impor. 

 Eu sei e você também sabe, que o Reino é de Deus. A iniciativa é Dele. A nós, como parte dessa Igreja, cabe construir com a ajuda transformadora de Cristo um Reino de amor e justiça para todos e todas. A Igreja é a comunidade de discípulos missionários de Cristo, desse modo somos chamados a anunciar o amor de Deus, amor esse, vivido por meio de Jesus Cristo e que deve ser experimentado nas comunidades. 

Assim sendo, a Igreja ensina-nos a voltar nosso olhar para as primeiras comunidades, onde percebemos a presença do amor fraterno, da partilha, do respeito, do diálogo numa profunda conversão à Cristo e à missão. Voltar ao essencial, ao coração do Evangelho, a caridade, princípio e fim de todas as coisas. Já estudamos e aprendemos com a Campanha da Fraternidade de 2020, cujo lema foi Viu, sentiu compaixão e cuidou dele, que “a fé nos leva necessariamente à ação, à fraternidade e à caridade” (CF, n.7). Assim, é sempre bom voltar à fonte bíblica e fazer uma releitura da prática buscando o rompimento com hábitos que já não estão mais sendo favoráveis, nem a nós nem aos outros.

Além disso, ao olhar para as comunidades primeiras, entendemos que podemos aprender como interagir com a cultura urbana, mesmo que essa cultura seja moderna, ou seja, a que vivemos hoje. Pois para elas os desafios de outros tempos eram tão importantes como os de hoje e só conseguiram vencer ou ultrapassá-los pela força do Pentecostes, “a experiência da presença viva de Deus no meio do povo (...). Presença essa que anima, dá força no caminho e direciona o olhar da comunidade para frente, para o futuro” (BRITO, 2005, p. 55). Assim vemos que o agir dos apóstolos, ou seja, a missão deles, estava em sintonia com o próprio Cristo. Eram sinais da presença de Deus no mundo.

A missão vem de Deus e hoje nós devemos, por meio do Espírito Santo, levar a todos e a todas a mensagem do Evangelho. Não só mostrando o amor de Jesus, mas vivendo-o, testemunhando-o: “olhem como se amam” (At 2). Logo, nossas comunidades devem ser abertas, acolhedoras, misericordiosas e sinal da presença de Deus no mundo. Devem ser testemunhas do Ressuscitado à luz do Evangelho e não de si mesmas, pensando globalmente e agindo localmente, sem perder a perspectiva do todo. O que deve importar a nós é a perseverança e a fidelidade, “não importa a vós saber os fins do tempo, mas recebereis o Espírito Santo” (At 1,7-8).

Atualmente, também em nossas comunidades, vivemos intensamente a cultura urbana na qual vemos o individualismo cada vez mais crescente, a indiferença em relação ao outro e ao seu sofrimento, o uso desenfreado das novas tecnologias, a globalização, além do relativismo, inclusive da fé. Portanto, é preciso compreender a mentalidade urbana atual, sabendo que ali também Deus está presente, porque segundo o apóstolo Paulo, “todos somos Templo do Senhor, Habitação do Senhor” (BRITO, 2005, p. 56). 

Esse é o contexto em que os missionários devem atuar. Não se pode fechar os olhos para a pobreza cada vez maior, o desemprego, a solidão, a violência em todos os sentidos. Sabemos que muitas vezes tudo isso contrasta com os valores da Palavra de Deus. Um dos desafios para evangelização é que as comunidades sejam unidas por interesses comuns e subjetivos, não só por espaços geográficos. É preciso ter equilíbrio e esperança no Deus da vida. Como hoje poderíamos adentrar nesses espaços geográficos e existenciais? Como modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse do pensamento, os modelos de vida?

O Documento 109 traz luzes. Mostra que talvez seja lá, nas pequenas comunidades, onde as amizades verdadeiras ainda sobrevivem, em que se aprofunda, na adoração comunitária de Deus, o caminho que deve ser percorrido. Lá onde ainda se pode partilhar a fé, as experiências de trabalho, em que um alimenta o outro no amor, na amizade concreta, por meio do Senhor. Lá, vivemos a presença de Jesus, pela repetição de todos os gestos aprendidos com Ele e de suas palavras, independentemente de qualquer modo, meio ou circunstância (Cl 3, 9b-11). É na comunidade cristã que fazemos a experiência especial e particular da presença de Deus, porque Deus se faz presente por meio de Jesus, “é um de nós entre nós, assume a nossa humanidade como lugar de sua habitação” (BRITO, 2005, p. 62).

Na vivência do amor de Deus que cria, cuida e vai ao encontro, como rezamos na Oração Eucarística IV., compreendemos que a missionariedade nasce da alegria do encontro, “de sermos plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui está a fonte da ação evangelizadora” (EG, n.8).  A evangelização não tem gavetas. O modo de ser Igreja é ser missionária, “o amor que brota da Trindade não pode encerrar-se em si mesmo, mas expande e transborda em todos e sobre todos” (PMN, 2019, p.32).

Desse modo, as pequenas comunidades devem priorizar a ação evangelizadora que, através dos trabalhos comunitários e pastorais, as leva a viver sua vocação e missão, em comunhão e solidariedade. Urge a Igreja em saída, que anuncie o Evangelho a todos sem excluir ninguém (Lc 2). O Papa Francisco nos ensinou um verbo novo para que a comunidade da qual fazemos parte, possa se adiantar, ou seja, primeirarse para envolver, para acompanhar, para frutificar e festejar. Somos nós quem deve nos adiantar, desinstalar e ir onde o povo está, dentro da realidade na qual ele está inserido, sem medo, pois o Espírito Santo, também se primeirea. É o Papa quem nos diz: “ousemos um pouco mais na iniciativa!” (EG, n. 24).

“Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo” (EG, n. 273). Portanto, devemos recorrer às origens do cristianismo, de maneira inculturada, com o comprometimento e a participação de todo o povo de Deus na vida e na missão da Igreja, pois a “vida com Jesus é muito mais plena e, com Ele, é mais fácil encontrar o sentido para cada coisa. É por isso que evangelizamos” (EG, n. 266).  Por fim, “saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo!” (EG, n. 49)

Valdiene Aparecida Gomes
Catequista na Paróquia Cristo Rei (EPAC) – Ipatinga/MG
Cursou a Formação de Coordenadores de Catequese – CNBB/Leste II
Cursou Bíblia em Comunidade – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
Professora da Rede Pública de Ensino e Mestra em Linguagens e Letramentos pela UFMG

Referências bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém (Ed. Revista). São Paulo: Paulus, 2004. 
BRITO, Jacil Rodrigues de. O Senhor está neste lugar e eu não sabia: teologia da presença. São Paulo: Paulinas, 2005.
CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.
______. Programa Missionário Nacional 2019-2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.
______. Campanha da Fraternidade 2020: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2019.
PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. 1ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2013.


Siglas usadas no texto:

CF Campanha da Fraternidade

EG Evangelii Gaudium

 PMN Programa Missionário Nacional

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