segunda-feira, 4 de maio de 2020

A Igreja nas casas

Reflexões sobre o Documento 109 – Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2019/2023)

A Igreja nas casas 

O capítulo 3 ora apresentado, inicia afirmando que Jesus gostava de estar nas casas com as pessoas, curava, jantava, conversava e não importava quem estivesse morando naquela casa, do mesmo modo os ensinava e compartilhava o alimento. Depois, nos recorda que Jesus Cristo não tinha onde repousar a cabeça (Mt 8, 20), mas amava estar nas casas dos outros e valorizava esse local de convívio. Sabia e ensinou a seus discípulos a criarem momentos para estreitar relações fraternas e comunitárias, era nesses momentos de refeição que “Jesus constituía a oportunidade para uma radical conversão que se inaugurava, no tempo daquelas vidas, o tempo do Reino de Deus” (MENDONÇA, 2013, p. 96)

Lembrando novamente das primeiras comunidades, a Igreja nas casas não se prendia a laços familiares, ia muito além, porque ela indicava uma pertença à família de Deus. Nessa família, a posição patriarcal já não tinha uma função, dado que Jesus dava atenção às mulheres e valorizava “sua presença e atuação na comunidade” (MOREIRA, 2012, p. 28). Por isso, entendemos que essa posição foi transformada em amor fraterno, em que as mulheres participavam de tudo e cuidava de todos.

Além disso, é importante lembrar para compreender melhor como as primeiras comunidades viveram e se formaram, que como alguns judeus aderiram à Jesus como sendo Cristo eles foram expulsos pelos fariseus, portanto, segundo Moreira (2012), foi um enorme desafio para os cristãos conviverem e se inculturarem a um ambiente pagão.  Mas essa convivência fraterna, entre cristãos e os não cristãos é um exemplo a ser seguido, porque o que importava era pertencerem à Cristo, assim viviam e participavam de tudo, portanto, ser cristãos não os separavam dos outros, mas tornou-se um estilo de vida e testemunho para todos.

Tais comunidades eram pequenas e com poucas famílias, onde compartilhavam a mesa da refeição, num estilo de vida próprio o qual era marcado pelo amor e o seguimento a Jesus Cristo. E isso implicava “numa identificação pessoal com o estilo de vida de Jesus e com seu compromisso com os pobres” (MOREIRA, 202, p. 41), numa convivência e cuidado com os pobres e com quem mais precisasse. 

Vendo nessas primeiras comunidades uma inspiração para nós e olhando para trás e observando os desafios da cultura urbana da qual fazemos parte, a Igreja no Documento de Aparecida (DAp) retoma esse modelo de pequenas comunidades eclesiais, como o local perfeito para a escuta e partilha da Palavra de Deus, oração, comunhão e aprofundamento da fé. Uma vez que “uma das colunas mestras que sustentava a vida das primeiras comunidades cristãs era a oração” (MOREIRA, 2012, p. 50). Eram comunidades como dito anteriormente, que cultivavam a oração, a vida em comum, buscavam uma familiaridade com o Espírito Santo e buscavam sempre Jesus Cristo para permanecerem firmes e unido a Deus. Por isso, um modo de vida que nos torna mais fiéis aos ensinamentos de Jesus e nos ajuda a sermos discípulos missionários. 

Desse modo, o Documento 109, a partir do entendimento que a missão deve ser o eixo fundamental da Igreja, apresenta as comunidades como a casa da Palavra, do Pão, da Caridade (CNBB, Doc. 100) e da missão, como o lugar da Iniciação à Vida Cristã (CNBB, Doc 107), do compromisso com os pobres (EG, n.197-201), da abertura aos jovens, do anúncio do Evangelho, da família (AL) e do cuidado à Casa Comum (LS). Tendo esse entendimento e pilares como base para as comunidades eclesiais que queremos, o Documento 109 apresenta algumas reflexões acerca desses pilares: da Palavra, do Pão, da Caridade e o da Ação Missionária. 

A comunidade cristã se reunia em torno da Palavra, conviviam com ajuda mútua e fortaleciam os laços fraternos. Vemos nesse exemplo, como a iniciação cristã se dava pela iniciativa de Deus e que se concretizava num encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo. Nos Atos dos Apóstolos conhecemos a narrativa da vida que essas comunidades levavam “perseveravam unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos, com alegria e singeleza de coração (At 2, 46). Dessa maneira, nas nossas pequenas comunidades devemos e podemos, a partir do encontro com a Palavra de Deus e a própria comunidade numa convivência fraterna, introduzir a todos os membros à Iniciação à Vida Cristã.

A Iniciação à Vida Cristã segundo os autores Silva, Rezende e Paiva (2014, p. 10), é uma proposta de catequese seja “capaz de introduzir os catequizandos já batizados ou os catecúmenos que se preparam para o batismo na vida da comunidade cristã, no estilo evangélico de vida, nos mistérios da fé, nos seguimentos da doutrina de Jesus”. Para isso, traz as primeiras comunidades como fontes nas quais poderemos beber, para ter adesão a uma fé mais madura, bem fundamentada que vem do encontro e convívio com a pessoa de Cristo e seu Evangelho. Segundo o Documento 107, não “estamos partindo do zero. Há um passado que pode impulsionar-nos a buscar constantemente novos caminhos, para que cheguemos a viver, com autenticidade e zelo ardente, o seguimento de Jesus, a partilhar com Ele a missão de fazer acontecer o Reino no mundo de hoje (CNBB, Doc 107, n. 39).

E, portanto, é a partir dessa experiência que nós, discípulos missionários, somos chamados a iniciar os membros das comunidades eclesiais, testemunhar a partir de nosso próprio encontro pessoal,  num “total envolvimento da pessoa com Jesus,  a ponto de uma transformação da vida (conversão) e adesão decidida e consciente ao seu projeto” (SILVA; REZENDE; PAIVA, 2014, p. 15). “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam — isto proclamamos a respeito da Palavra da vida” (1 Jo 1,1), é pois, a fé vivida, celebrada e partilhada em comunidade, no encontro pessoal que traz um processo de crescimento que não cessa. 

Como vimos, no Pilar da Palavra há um encontro profundo com a iniciação e segundo orientação do Documento 109 é preciso considerar as seguintes etapas desse processo: o querigma, ou seja, o primeiro anúncio que é essencialmente sobre a pessoa de Jesus, sua mensagem, suas ações, vida, morte e ressurreição. O catecumenato, quer dizer, a realização de um itinerário, um caminho que ajude a pessoa a assumir a fé da Igreja, nessa etapa se dá o ensinamento e a vivência das práticas litúrgicas e a participação da vida comunitária. A etapa seguinte é a purificação-iluminação, em que há uma preparação para a recepção dos sacramentos de iniciação (batismo, crisma e eucaristia), além das práticas quaresmais, e por fim, a mistagogia, que é a introdução ao mistério pascal de Cristo que deve ser vivido na comunidade, junto com os irmãos.

 Ao seguirmos esse processo que é fundamentado na Palavra de Deus e na liturgia, nosso olhar e ouvidos estarão voltados para a escuta da Palavra e da Oração (CNBB, Doc. 107, n.66). Isso, porque é por meio da leitura das Sagradas Escrituras, partilha e oração que o membro daquela comunidade eclesial poderá contemplar e viver todo o ensinamento de Jesus Cristo e adesão ao seu Projeto.

Assim, é importante que a comunidade reunida conheça e aprenda a leitura orante da Palavra de Deus, o que permitirá aos membros ter uma formação para o discipulado. A leitura orante não é a leitura da Palavra, mas é rezar o texto bíblico, de preferência em comunidade, para não correr o risco de fazer leituras fundamentalistas da Palavra e o mais importante, fazer do Evangelho critério para a mudança de vida. Esse método de aproximação à Sagrada Escritura é uma orientação do Documento de Aparecida (DAp,  n. 249). 

A leitura orante que é um método antigo da Igreja Católica, também conhecido como Lectio Divina, “é uma prática de meditação da Palavra de Deus, consagrada na Igreja desde a idade Média, redescoberta e atualizada par os nossos tempos” (SILVA; REZENDE; PAIVA, 2014, p. 19). Para rezar a Palavra com esse método é preciso seguir alguns passos: escolher um ambiente agradável e propício para a oração em comunidade ou individual, com silêncio para que possa meditar a Palavra de Deus. Depois disso, invoca-se o Espírito Santo e parte-se para viver os 4 degraus para a oração (SILVA; REZENDE; PAIVA, 2014, p. 20/21):

O primeiro degrau é perguntar-se ou perguntar aos outros: o que o texto diz. Neste degrau, pode-se propor a releitura do texto em silencio, ou em outras versões bíblicas, em voz alta novamente etc. Depois, pode-se recontar a passagem com as próprias palavras, contar o contexto onde se passou, que pessoas estavam envolvidas, que fato ou reflexão foram feitos no texto. É o contato com o texto lido.
No segundo degrau se questiona o que o texto me diz, somos convidados então, a interiorizar e meditar em primeira pessoa o texto. O que, naquele momento o texto fala a mim, deixar que o texto traga à tona a sua mensagem e que Deus nos apresente sua voz por meio do texto. Pode-se pedir que destaquem trechos ou versículos que mais chamaram a atenção ou que trouxeram alguma meditação específica. Esse momento pode ser feito em silêncio ou partilhado. Aqui é o que chamamos de reflexão sobre o texto, momento de falar o que entendemos.

No terceiro degrau, pensa-se o que o texto me leva a falar com Deus, ou seja, o que eu li e refleti junto com meus irmãos me faz rezar? O que dessa leitura posso apresentar a Deus como oração? De maneira espontânea, cada um pode fazer seu pedido, agradecimento, louvor, súplicas, pedidos de perdão, é a nossa oração pessoal, mas sem o caráter individualista. Seria bom se fosse feita em primeira pessoa, porque é a oração pessoal com Deus, que também pode ser em silêncio ou partilhada.

No quarto degrau devo me perguntar: o que devo fazer a partir de tudo o que conheci, refleti e rezei? Esse é o momento de contemplar a Palavra de Deus e tudo o que ela me leva a fazer, é o agir da oração. A oração também nos faz sair do lugar, quando vemos a realidade intermediada pela Palavra de Deus, precisamos também assumir nosso papel de anunciadores e denunciadores. Portanto, é preciso assumir um compromisso pessoal, comunitário ou social nesse momento da oração, que também pode ser expresso em voz alta ou não. 

Por fim, esse método se mostra muito eficaz para  ajudar as pessoas a rezarem e a conhecer melhor a Palavra de Deus, por isso, é muito importante motivar as pessoas a se expressarem, às vezes pode ser em voz alta, outras vezes por escrito e lido, a criatividade é quem manda. A cada passagem de degrau é importante termos cânticos apropriados ou mantras, que ajudem a comunhão entre os participantes e a leitura orante. 

Desse modo, não perderemos de vista o exemplo que Jesus nos deu em sua vida, pois ele era um judeu fiel às tradições e costumes de seu povo, portanto também tinha seus momentos de oração, como bem vemos nos Evangelhos que nos contam diversos instantes de sua vida nos quais ele orava. Esse entendimento de Jesus orante é “de fundamental importância para nós que buscamos na liturgia, e no cultivo da espiritualidade, uma referência segura para a vida e uma iluminação para as práticas catequéticas de nossas comunidades (PAIVA, 2008, p. 22). 

Além de nos fazer entender também, que apesar de rezar mediante as tradições judaicas, Jesus não se furtava de “censurar a hipocrisia dos que louvavam a Deus da ‘boca para fora’, mas não chegavam as ultimas consequências da oração (...), alertava continuamente para o perigo de fazer da oração uma exterioridade ou mesmo uma maneira de satisfação do orgulho pessoal e cultivo de aparências” (PAIVA, 2008, p. 25). Não é possível entender a oração que não leva ao compromisso com consigo e com o outro, para buscarmos e construirmos um mundo melhor para todos.

Lembremo-nos daquela passagem na qual Jesus nos disse como não devemos orar: “e quando orardes, não sejais como aqueles hipócritas, porque eles gostam de fazer oração pondo-se em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa” (Mt 6, 5-5). Conhecemos e rezamos na oração do Pai Nosso um “roteiro de vida, que integrava o amor ao Pai e o amor aos irmãos, e dispunha do homem orante o compromisso com o Reino em todas as suas dimensões e exigências” (PAIVA, 2008, p. 25).

O Documento 109 nos apresenta também o Pilar do Pão, pois além de se alimentarem da Palavra de Deus, as primeiras comunidades se alimentavam também do pão, na celebração da Eucaristia. E faziam isso juntos, importante destacar que a mesa está sempre no centro da celebração da fé, em que fazemos o memorial do Senhor. Há um importante documento da Igreja que nos ajuda a entender a centralidade do mistério pascal em nossa fé e na liturgia, o Sacrossanto Concílio (CS), em que “Jesus Cristo é recolocado como o centro de toda a vida cristã – e por isso mesmo, da liturgia – e como eixo da ação da Igreja, povo de Deus (PAIVA, 2008, p. 44). 

Fazer o memorial do Senhor, então, é fazer novamente em nossos dias, na cultura urbana apresentada pelo documento 109, a mesma entrega e o mesmo amor de Jesus, principalmente aos pobres, aos excluídos, apontados e marginalizados, dando assim a dimensão social à Eucaristia (PAIVA, 2008). Ao comungar assumimos a missão de Jesus Cristo, acompanhados pelo próprio “Senhor que, de maneira especialíssima, fica conosco, nos acompanha na longa e árdua estrada da vida (PAIVA, 2008, p. 87).

Portanto, a nossa fé deve ser alimentada na Palavra de Deus e na Eucaristia, pois é “o lugar privilegiado do encontro do discípulo com Jesus Cristo” (DAp, n. 251). É pela Eucaristia, pela celebração do mistério pascal, que cada um de nós, discípulos missionários penetramos e assumimos ainda mais o mistério pascal em nossa vida (DAp, n. 251), para assim poder anunciar sempre aos outros o que temos vivido e escutado. Ainda no Documento de Aparecida (n. 255), vemos a importância da oração pessoal e comunitária, alimentadas pela Eucaristia e pela Palavra, sendo primordial no caminho do discípulo missionário. 

Essa vivência profunda da nossa fé, ajuda a vencer um dos desafios presente nas comunidades locais, que é a ideia de que a ação é uma forma de oração. É importante não confundir a ação com a oração nos grupos, comunidades e pastorais, todos nós devemos alimentar nossa fé pela oração e pela Eucaristia, tendo como fonte inesgotável a Palavra de Deus, fazendo de cada um de nós testemunhas “de uma vida vivida com simplicidade e alegria no seguimento de Jesus” (MENDONÇA, 2013, p.106).

O próximo Pilar a conhecermos um pouco mais é o da Caridade, o Documento 109 nos diz que é pela caridade, desenvolvendo um olhar mais interessado pelo outro e com a oração que podemos ser verdadeiros discípulos missionários. A oração sem caridade, perde a força. Jesus, pelo caminho rezava, curava e cuidava das pessoas, dos abandonados à beira da estrada, dos doentes, dos pobres e marginalizados, pecadores e perseguidos. Nos deu o exemplo de amor, misericórdia e ação. 

Segundo o Papa Francisco (2017, p. 9), “Jesus é o rosto da misericórdia do Pai”, desse modo, o filho tornou o Pai visível e vivo para diversos homens e mulheres, para que eles e depois nós pudéssemos perceber e entender que tudo em Jesus exalava misericórdia. Por isso, “enquanto casa de comunhão, a comunidade é chamada a celebrar frequentemente o perdão e a misericórdia do Senhor” (Doc 107/101). Pois, afinal, nossa Igreja é santa e pecadora e viver a experiência do Deus de misericórdia, nos faz discípulos missionários que agem também com misericórdia para com os outros.

Ainda na perspectiva da misericórdia, o Papa Francisco nos questiona sobre a nossa vivência e prática das obras de misericórdia trazidas por Jesus e roga para que elas façam parte da nossa vida e isso vai ao encontro do apelo do Pilar da Caridade: alimentar os famintos, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, acolher o estrangeiro, curar os doentes, visitar o presidiário e enterrar os mortos. Assim, nós comunidade eclesial, devemos nos preocupar e socorrer a todos os que sofrem: os pobres, os imigrantes e refugiados, pessoas em situação de rua, encarcerados, crianças, idoso, juventude, família, os indígenas, quilombolas e pescadores. Todos e todas são riquezas do nosso país, até porque todos e tudo é “amado por Deus. A misericórdia de Deus é anterior ao pecado do mundo” (PALEARI, 2001, p. 28).

Devemos também, junto com a Igreja e iluminados e guiados pelo Espírito Santo reconhecer e fazer com que os outros possam conhecer “as sementes do verbo, presentes nas várias culturas, e promover o encontro dessas culturas com Jesus Cristo, que as ilumina (CNBB, Doc 109, n.114), fazendo com que possamos dar um passo à mais, em direção à defesa da vida. O Evangelho que a Igreja anuncia é o da paz (Ef 6, 15), que é o próprio Jesus (Ef 2, 14), portanto, precisamos assumir posturas que promovam a paz, que enfrentem a violência, a exclusão, a pobreza e a cultura das diversas facetas da morte em nosso meio.

 Conforme o Documento 109 (n. 60), não se pode negar que a caridade “se expressa no empenho e na atuação política dos cristãos “, ao compreender isso, nós cristãos poderemos promover e participar da boa política, como uma forma de promover a paz e todos os direitos do ser humano, como a justiça e o trabalho. Diz ainda que “a omissão dos cristãos nesse campo pode trazer gravíssimas consequências para a ação transformadora na Igreja e no mundo (Doc 109, n.60).

No Pilar da Atuação Missionária, tendo em vista a atualidade e todas as sombras apresentadas no capítulo 2 (Doc 109), não podemos pensar que todos já conhecem a Boa Nova e que ela já faz parte da vida de todos. Não! Nós devemos anunciar diariamente, nos espaços comuns que atuamos como no trabalho, na escola, com os amigos, os valores do Reino, o amor de Jesus e a sua misericórdia. A partir da experiência e intimidade do encontro com Jesus e de uma fé mais madura, tendo como ponto de partida o processo por nós vividos nesse encontro, o nosso coração deve arder para anunciar o Evangelho a todos, sem exceção. 

Segundo Giorgio Paleari (2001, p.29), o “fim da evangelização é o mistério trinitário. Isso significa que o Reino na sua plenitude (“Deus tudo em todos”) é o caminho da prática do missionário. Tudo faz parte do Reino que foi o sonho e o projeto de Jesus, associado à vontade do Pai, sendo a força que deve impulsionar ao discípulo missionário “a dar a própria vida pelo plano de Deus” (PALEARI, 2001, p. 31).

A missionariedade de todos nós leigos e de nossas comunidades se expressa quando garantimos dignidade de cada ser humano e, portanto, devemos nos abrir sempre ao diálogo, acolhida, luta pela justiça e combate à pobreza. De novo, a compaixão interpela o caminho do discípulo missionário, porque a luta pela garantia de direitos nasce da compaixão, pois ela “exige que se fixem os olhos sobre o pobre e se sinta, de maneira aumentada, o sofrimento do outro” (PALEARI, 2001, p. 36), ao sentir esse sofrimento aumentado não há como ser indiferente à situação vivida por ele. 

Devemos olhar a realidade pela lente dos óculos de Deus, pois o “mistério da encarnação é que Deus não permaneceu no lugar que lhe era próprio, mas, movido profundamente pelas condições de sofrimento do ser humano, abandonou seu lugar celeste e assumiu o lugar humilde entre as pessoas. Ele mesmo experimentou a miséria de nossa condição terrena” (PALEARI, 2001, p. 37).

 Segundo Paleari (2001, p. 53), “toda a vida missionária está sob o impulso da ação transformadora de Deus”, por tanto é preciso ver na realidade dos tempos atuais, da qual a internet também faz parte, como um lugar onde também expressaremos a nossa missionariedade, porque “são novos recursos, linguagens e meios de evangelizar” (Doc. 109, n. 118). Porém, o documento Gaudium et Spes nos chama a atenção para o discernimento ao utilizar as mídias digitais para não propagar fake news ou informações superficiais que podem trazer diversas consequências.

Nossa missionariedade também é expressa pela presença viva, alegre e atuantes dos jovens na Igreja. Cabe à comunidade nessa atitude de diálogo, acolhê-los, para renovar a comunidade eclesial. Sabemos que os jovens, com seu testemunho e ardor missionário podem “ser ainda mais missionários entre os jovens” (Doc. 109, n. 119). A comunidade eclesial deve compreender que a missão é, “antes de tudo, deixarmo-nos conduzir por Deus aonde e como ele quer e de acordo com os planos que ele tem para a nossa vida “(PALEARI, 2001, p. 56), abrindo espaço para que todos possam se sentir e se tornar verdadeiros discípulos missionários de Cristo.

Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso eu. É parar de dar volta ao redor de nós mesmos como se fôssemos o centro do mundo e da vida. É não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos: a humanidade é maior. Missão é partir, mas não devorar quilômetros. É, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E, se para encontrá-los e amá-los é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então Missão é partir até os confins do mundo. Dom Helder Câmara 

Valdiene Aparecida Gomes
Catequista na Paróquia Cristo Rei (EPAC) – Ipatinga/MG
Cursou a Formação de Coordenadores de Catequese – CNBB/Leste II
Cursou Bíblia em Comunidade – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
Professora da Rede Pública de Ensino e Mestra em Linguagens e Letramentos pela UFMG

Referências bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém (Ed. Revista). São Paulo: Paulus, 2004. 
CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.
_____. Iniciação à vida cristã: itinerário para formar discípulos missionários. 2ª ed. Brasília: Edições CNBB, 2017.
DOCUMENTO DE APARECIDA. Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Edições CNBB, Paulinas, Paulus. 2007.
MENDONÇA, José Tolentino. Nenhum caminho será longo: para uma teologia da amizade. São Paulo: Paulinas, 2013.
MOREIRA, Gilvander Luís. Lucas e Atos: uma teologia da história. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 2012.
PAIVA, Vanildo de. Catequese e liturgia: duas faces do mesmo mistério. São Paulo: Paulus, 2008.
PAPA FRANCISCO. Alegria de ser discípulo. Editado e compilado James P. Campbell. Tradução Sandra Martha Dolinsky. 2ª ed. Rio de Janeiro. Bestseller, 2017.
PALEARI, Giorgio. Espiritualidade e Missão. São Paulo: Paulinas, 2001. 
SILVA, Marlene Maria. REZENDO, Rita de Cássia Pereira. PAIVA, Vanildo de.  O processo de formação da identidade cristã: roteiros e reflexões para retiros e formação de catequistas com inspiração catecumental. São Paulo: Paulus, 2014.

Olhar de Discípulos Missionários

Reflexões sobre o Documento 109 – Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2019/2023)

Olhar de Discípulos Missionários

Neste capítulo somos levados a contemplar o mundo em todas as suas belezas, mas também em todas as sues problemas, para continuar anunciando o mesmo Evangelho. Nós, somos a Igreja e a Igreja somos nós, portanto, devemos acolher, contemplar, discernir e iluminar a vida, nas suas expressões culturais, sociais, políticas e éticas com a Palavra de Deus.

É como discípula missionária que a Igreja deve olhar para a realidade. Desse modo, o Documento 109 ensina a Igreja a adotar uma postura de compreensão do mundo como discípula e servidora de Cristo. E atenta às profundas transformações, à mudança de época, é que a Igreja e nós, devemos nos manter fiéis ao entendimento da vida, da família e da realidade. Compreendendo essa realidade a Igreja poderá interagir melhor para fazer com que o Reino de Deus cresça.

No primeiro capítulo, vimos que é preciso reconhecer a presença de Deus em nosso contexto histórico, no qual o mundo vai se tornando uma grande cidade, onde tudo está interligado e próximo. Assim, cabe à Igreja ao entender que Deus permanece presente em meio a tudo o que acontece, por meio do Espírito Santo discernir e nos ajudar a compreender o que é luz e o que é sombra, a primeira como sendo um sinal do que o Senhor está realizando e a última como as negações do Reino de Deus.

O Estudo da Campanha da Fraternidade de 2020, lança muitas luzes sobre a realidade que vivemos hoje. A reflexão do texto base nos ajuda e muito, a entender qual deve ser o nosso olhar para essa realidade e também a ver as sombras que vivemos e às vezes que até colaboramos para que elas aconteçam. Ver, sentir compaixão e cuidar, com esse olhar desperto pela CF vamos ver o que o nosso tempo atual traz de sombras:

É sombra as atitudes individualistas, em que a satisfação de si se torna critério que determina tudo, reduzindo o outro à sua utilidade de oferecer algo. Segundo o texto base da CF, tal individualismo está tão forte e presente que corremos o risco de não ver a vida mais como “dom e compromisso, mas como um peso ou como algo de que a pessoa possa dispor a seu bel prazer” (CF, n. 52). 

É sombra a redução da função oficial do Estado, que prejudica a dignidade das pessoas e enfraquece o exercício dos direitos humanos. Faz com que percamos a compreensão de que ao ignorar os direitos humanos abrimos “brecha para o perverso caminho da intolerância política, religiosa e cultural, raiz de fundamentalismos, de preconceitos e de discriminações” (CF, n. 52). Segundo ainda os estudos da CF deste ano, o Estado se preocupa mais com os aspectos econômicos do que com a vida e cuidado com as pessoas, há que se ter um equilíbrio entre a economia e o social, quando o Estado se omite em relação às políticas públicas ele “se equipara àqueles que promovem a morte como nos casos de guerra” (CF, n. 55).

É sombra o consumismo, pois tudo é feito para ser consumido o mais rápido possível, para logo ser substituído. Acabamos também por transformar as pessoas em objetos descartáveis, “é a mercantilização da vida, em que o ser humano passa a ser avaliado pelo o que produz” (CF, n. 52). Quem pode consumir, consome, quem pode comprar, compra. E quem não pode? Toda essa individualização se conecta a outros fenômenos como a corrupção, comércio de drogas, à violência, legalização da morte, os poderes paralelos e à fragilização da família. Você consegue perceber essa ligação?

É sombra a pluralidade, quando oferece a possibilidade de escolha que leva à morte e ao sofrimento, impulsionada também pelo individualismo e consumismo, que muitas vezes alimenta o ódio e destrói vidas. É sombra também, ambientes religiosos que permitem à pessoa tornar-se a si o critério absoluto para a escolha de um caminho religioso, fechando-se ao mistério de Deus.

É sombra também quando se assume posturas abandonadas pelo próprio Jesus, ao fazer certas interpretações da Palavra de Deus, como se pode ver hoje com as fake news: “mesmo nas media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia” (CF, n. 50), esquecendo-se do oitavo mandamento de Deus. 

Ainda o é quando faz de Deus e da Igreja soluções financeiras e quando fundamentam preconceitos que levam à violência. A imagem do Deus da prosperidade que se tem muito nos tempos atuais, mostra que acreditamos que Deus “dá ao ser humano só o que é bom na vida. Tudo o que é ruim vem do Demônio” (SOARES, 2012, p. 30), ou seja, não há prosperidade porque não buscam a Deus e não porque de algum modo, o “projeto de Deus foi rompido pela injustiça humana” (SOARES, 2012, p. 31). 

É preciso refletir e compreender que a causa da pobreza, infortúnio e violência é pela quebra da justiça e para Deus a justiça é na mesma medida da misericórdia, porque “se Deus se limitasse apenas à justiça, deixaria de ser Deus” (FRANCISCO, 2017, p. 17). Portanto, “os pobres e os sofredores não são ‘amaldiçoados por Deus’, como reza a ‘teologia da prosperidade’, mas sim seus prediletos, seus amados e escolhidos” (SOARES, 2012, p. 31). 

É sombra a mobilidade, os diversos deslocamentos que forçam as pessoas a viverem na rua. É sombra a pobreza, gerada muitas vezes pelo individualismo consumista, é a vida agredida “em diversas formas, desde a fecundação até a morte natural” (CF, n.58). É sombra a crise existencial, a depressão, a solidão, a ansiedade, o suicídio, o que pode atingir a todos, a mim, a você! Sabemos que não somos e nem podemos viver como uma ilha, somos responsáveis uns pelos outros. É preciso cuidar para que a indiferença não torne a todos invisíveis em seus sofrimentos (CF, 2019).

É sombra a agressão ao meio ambiente, que também vimos nos estudos da CF. A natureza não pode ser vista, nem entendida como algo separado de nós, seres humanos, “estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos” (CF, n.59). É sombra a exploração dos recursos ambientais, a mineração sem controle. Tudo isso questiona a evangelização e a presença da Igreja nos cenários urbanos. É sombra, quando nosso olhar para nossa casa comum é de indiferença.

É sombra, o desafio enfrentado pelos jovens pela falta de referencialidade. Caminham de maneira muitas vezes extremas e outras vezes ingênua, diante disso, a verdade é relativizada e individualizada. Ficam alheios, o que os tornam demandas fáceis para os oportunistas do mercado, “atraindo os jovens para uma mentalidade permissiva disfarçada de progresso cientifico. Na verdade, são propostas que excluem as pessoas e descartam vidas inocentes” (CF, n.48).

Em nosso país, é urgente a redescoberta da autêntica democracia que se constrói através da justiça social, da participação, das garantias institucionais, do bem comum, da liberdade de expressão e de respeito às diferenças. Esses desafios apresentados serão enfrentados, segundo Documento 109, à medida em que nos unamos com os irmãos de outras igrejas, bem como outros que percorrem caminhos diferentes de fé e a todos os homens e mulheres de boa vontade. Não podemos ficar fechados em nós mesmos.

Segundo o texto base da CF 2020 todas essas sombras e algumas mais são formas de sofrimento que “mostram, em primeiro lugar, que a vida é continuamente agredida” (CF, n. 67), diante disso, nós cristãos e missionários não podemos nos calar e ficarmos indiferentes. Devemos a partir do exemplo do Samaritano, não só olhar, mas se aproximar, se compadecer e se colocar a serviço do cuidado às pessoas. Não podemos permitir que nosso olhar de indiferença sobreponha à misericórdia, à esperança e a ação que ela nos anima a fazer.

Mas nem só de sombras vivem as grandes cidades, há muitas luzes, porque não podemos ofuscar nossa fé só com olhares de sombra. A luz nos guia sempre!

É luz, a nossa dignidade irrenunciável e insubstituível, feito da obra criadora de Deus, que mesmo em meio a tanta situação ruim, supera a fragilidade da vida, realça a beleza e a alegria de viver (CF, 2019). É luz a pluralidade, na medida em que permite à pessoa exercer o dom da liberdade e escolher em meio às múltiplas variáveis. É luz, a variedade de propostas religiosas quando essa experiência é fruto de uma escolha livre e consciente que leva ao diálogo inter-religioso, ecumênico e dos “jovens de todo o setor da juventude nas dioceses e de outras expressões juvenis, que levam adiante a campanha contra a violência e o extermínio de jovens” (CF, n. 76).

É luz, a mobilidade que nos faz ir de um lugar ao outro, nos possibilitando experimentar diferentes modos de lidar com a vida, com as diversas pastorais que não se calam diante dos desafios impostos pela realidade (CF, 2019). São luzes a resistência e a resiliência, porque não se deixam levar pelas coisas que degradam a vida e a natureza. É importante, que a pesar do contexto sombrio, apresentado no capítulo 1 do Documento 109, há muitas pessoas que se dedicam à construção do Reino, “são animadores o empenho, a dedicação e o exemplo de Bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas e inúmeros cristãos leigos e leigas, que destemidamente, dão testemunho do Evangelho da  vida em situações desafiadoras que ameaçam a vida e a dignidade humanas” (CF, n. 78).  Todos esses e tantos outros mais, ao contrário, em meio à diversidade, usa de criatividade para descobrir novos caminhos para reconstruir a vida e a paz.

As igrejas particulares estão sendo estimuladas a darem passos em direção a um novo jeito de evangelizar, a assumir uma maneira de valorizar as luzes e assumir “o olhar solidário capaz de cuidar, como o modo de ser no mundo, nos permite ir além do egoísmo e da indiferença” (CF, n. 81). Segundo o Papa Francisco, no Documento 107, é urgente que nossa Igreja assuma a  necessidade de rever as formas e caminhos de se transmitir o Evangelho, o que tem feito surgir tentativas de tornar mais concretos os processos de iniciação cristã, em que a pessoa “aprende e se deixa envolver pelo mistério amoroso do Pai, pelo Filho, no Santo Espírito. Seu agir será outro, passando a um novo modo de vida no campo pessoal, comunitário e social” (DOC 107, n. 5).

Nos locais onde a urbanização é mais evidente, deve-se ter coragem de abandonar as estruturas já ultrapassadas que não favorecem mais a transmissão de fé, dessa fé que é luz e “possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem” (LF, n. 4). Nossa ação evangelizadora precisa ser a do discipulado e da missionariedade, deixando-se encontrar pelo Senhor e formar comunidade. O Papa Francisco nos ensina que predicar o Evangelho é levar o “poder de Deus de arrancar e demolir o mal e a violência, arruinar e destruir as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio, de modo a construir um novo mundo” (FRANCISCO, 2017, p. 123).

É o discípulo missionário que deve conhecer e reconhecer as dores apresentadas na cidade, na alegria da certeza de que ser um discípulo missionário não é um fardo, mas sim um dom (DAp, n. 28). Somos todos abençoados por conhecer o amor de Jesus e sermos enviados a anunciar a todos e todas a Boa Nova, que é o próprio Jesus Cristo, “Caminho, Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Quando assumimos esse chamado conseguimos vencer o fechamento das pessoas e nossa dificuldade de ir até o outro. Cabe ainda ao discípulo missionário adentrar na dinâmica do Bom Samaritano, como vimos na CF, ser próximo de quem sofre, dos excluídos, seguindo a mesma prática amorosa e acolhedora de Jesus.

É o discípulo missionário que deve testemunhar e anunciar a presença de Deus a todos, dizer que o Senhor está conosco na tribulação, no sofrimento, na fome, na pandemia e que não nos abandona nunca, mas que “alenta incessantemente nossa esperança em meio a todas as provas” (DAp, n. 30). O Documento de Aparecida nos interpela a sair da espera passiva dos templos e ir para proclamar o amor de Deus e diz mais, que para “nos converter em uma igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora, temos que ser de novo evangelizados e fiéis discípulos (DAp, n. 549). Voltar ao primeiro amor sempre!


Valdiene Aparecida Gomes
Catequista na Paróquia Cristo Rei (EPAC) – Ipatinga/MG
Cursou a Formação de Coordenadores de Catequese – CNBB/Leste II
Cursou Bíblia em Comunidade – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
Professora da Rede Pública de Ensino e Mestra em Linguagens e Letramentos pela UFMG

Referências bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém (Ed. Revista). São Paulo: Paulus, 2004.
CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.
______. Campanha da Fraternidade 2020: texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2019.
DOCUMENTO DE APARECIDA. Texto conclusivo da V Conferencia Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Edições CNBB, Paulinas, Paulus. 2007.
PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Lumen Fidei. 1ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2013.
______. Alegria de ser discípulo. Editado e compilado James P. Campbell. Tradução Sandra Martha Dolinsky. 2ª ed. Rio de Janeiro. Bestseller, 2017.
SOARES. Paulo Sérgio. Iniciativa de Deus e corresponsabilidade humana: teologia da graça. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 2012.

Encontro catequético para adultos - Doc 109

TEMA: Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil 2019-2023

OBJETIVO
Estudar e compreender o capítulo 1 do Doc 109 “O anúncio do Evangelho de Jesus Cristo” 

ACOLHIDA
Acolher aos participantes com alegria antes de entrar na sala do encontro e entregar um cartão em forma de coração (vazio) e encaminhá-los ao local do encontro.
Preparar à frente dois espaços:
1 – para a Bíblia, com flores e velas.
2 – para o encontro, com panos coloridos colocar uma cruz com pano vermelho.

ORAÇÃO
iniciar o encontro pedindo aos presentes que abram a bíblia no Salmo 122 (121). Após a leitura pedir que todos se cumprimentem com o abraço da paz. Para finalizar, rezar de mãos dadas a oração da paz, mas antes fazer memória de pessoas ou lugares que precisam da paz que vem de Jesus Cristo.

VER 
Pedir que, tendo como fundo musical o canto Seu nome é Jesus Cristo ou outro que fale da pessoa de Jesus Cristo, que todos escrevam (providenciar canetas) QUEM É JESUS PARA ELE, no cartão em forma de coração. Ao fim, todos devem depositar aos pés da cruz os cartões.

ILUMINAR – Ler Jo 1, 35-50
Fazer a entrada da vela e colocá-la ao lado da bíblia. Quem entrar com a vela fará a leitura bíblica.
Canto – Ó luz do Senhor que vem sobre a terra...
Ler pausadamente. Depois, passar para a reflexão da Palavra, sempre motivar a participação de todos:
1 – Pedir que os presentes falem em voz alta os nomes que apareceram na leitura.

2 – Que título João deu a Jesus?

3 – O que perguntaram a Jesus? O que Ele respondeu? 
Sabendo que está sendo seguido por André e João, pois passara ali para atraí-los a si, Jesus volta e pergunta: “Que estais procurando?” Os dois fascinados pela mansidão e brilho que irradiava do Mestre, respondem perguntando: “Onde moras?”A resposta é um convite que continua ressoando através dos séculos: “Vinde e vede!” A todos os que têm um encontro casual ou ouviram falar de um “tal Jesus”, Ele convida para uma experiência pessoal, única e irrepetível: “Vinde e vede!” O salmista antigo já sugeria: “Provai e vede quão suave é o Senhor” (Sl 34(33),9). Eles foram e viram! Novamente, o Senhor faz o mesmo convite a você, do século XXI: “Vem e veja”. Você é convidado a conhecer e estar com o Senhor, a provar da sua doçura, mansidão e alegria, da paz messiânica que é toda sorte de bens materiais e espirituais que Jesus traz.

4 – O que Jesus fez ao se encontrar com Simão? 
O olhar de Jesus para Simão (cf. vers. 42) vai marcá-lo para sempre. Pedro e os outros não “fizeram” nada, não deram provas de boa oratória para uma pregação eficaz, ou de serem conhecedores da Lei ou mesmo algumas boas ações que os credenciassem. Simplesmente, Jesus passou, olhou-os, amou-os e os convidou para segui-lo: “Tu, Simão, filho de João, chamar-te-ás Cefas, isto é, Pedro/Pedra”. Tens agora uma nova missão.

5 – Jesus ao encontrar-se com Felipe, o que diz? 
O próximo encontro é com Filipe, e não é um longo discurso de convencimento. Uma palavra bastou: “Segue-me”. Não há como expressar a graça e a força do olhar de Jesus para Filipe.

6 – Natanael, não acredita que algo bom possa vir de Nazaré. Mas o que Felipe o responde?
Filipe,“contagiado”, encontra Natanael, o mesmo Bartolomeu dos Sinóticos, e diz: “Encontramos aquele de quem falaram Moisés e os Profetas”. Diante da incredulidade inicial, Filipe faz o mesmo convite de Jesus: “Vem e veja!”. Natanael aceita e, antes de chegar, a graça de Deus estava agindo. Diz-lhe Jesus: “Antes que Filipe te chamasse, eu te vi, quando estavas sob a figueira”. O conhecimento de Jesus ultrapassa as aparências e o tempo. Ele vê o coração e sabe de cada um, de cada particularidade de nossas vidas.

7 – Para finalizar, questione: qual dos participantes mais se assemelha a você? Por quê?
Aos dois discípulos de João Batista? A André? A Pedro? A Felipe? Ou a Natanael?
Repetir essas palavras: Vinde e vede! Segue-me! Antes...te vi! Coisas maiores verás!

DINÂMICA
Espaços vazios no canto Mestre, onde moras? Baixar a música da internet.
Pedir que se sentem em duplas e completem os espaços vazios na música. Depois, voltar e verificar as respostas. Por fim, convidar a todos que cantem. Dessa forma, a música deverá ser passada três vezes.
Canto: Mestre, onde moras? 
No meu_______________ sinto o chamado,
fico inquieto: preciso responder.
Então pergunto: "mestre, onde moras?"
E me respondes que é ___________caminhar.
Seguindo teus__________, fazendo a história,
construindo o novo no meio do ___________. (bis)
Refrão: mestre, onde __________? Mestre onde estás?
No meio do povo. __________ e verás.
Te vejo em cada _________das pessoas,
tua imagem me anima e faz viver.
No coração __________ que se doa,
no sonho do teu reino acontecer.
Teu reino é_____________, é paz, é missão,
é a boa nova da ________________! bis 
Tua palavra abre novos ______________________, 
é convite de serviço aos irmãos. 
Me _______________, me envia a assumir 
teu projeto nesta vida, neste chão. 
Meu "sim" é resposta, é meu jeito de ____________, 
estar com teu___________, contigo morar. (bis)

AGIR
Dividir os participantes em pequenos grupos para ler e refletir o capítulo 1 (O anúncio do Evangelho de Jesus Cristo) sobre o Documento 109:

Grupo 1 - Fidelidade a Jesus Cristo, Missionário do Pai.
a) Lendo o nª 12, quais discípulos da leitura bíblica, teve o encontro com Jesus que provocou uma conversão de vida? Explique.
b) O dom da graça (nº 15 e 16), ultrapassa a inteligência. Como o Evangelho nos mostra isso? Qual foi a alegria que contagiou a todos nesse evangelho?
c) Segundo o nº 17, como deveríamos ser enquanto Igreja?
d) O que vocês compreenderam sobre o nº 17 e o que tem a ver com o Evangelho lido?

Grupo 2 - A Igreja comunidade de missionários de Jesus Cristo.
a) Após a leitura do nº 19, como os dois apóstolos reagiram ao ver o Cordeiro de Deus? E como isso se relaciona com este texto?
b) Este texto fala da Igreja, o que no texto bíblico nos remete à Igreja? 
c) João ao apontar Jesus como o Cordeiro, seus discípulos os deixam e passam a seguir o mestre. A igreja tem apontado o Cordeiro de Deus? Tem impulsionado as pessoas a irem e ver? Como a Igreja tem comunicado o amor de Jesus Cristo? 
d) O nº 20, diz que a experiência do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, acontece através da mediação dos outros. Isso acontece no Evangelho? Como? Como deve ser o nosso testemunho de Jesus no mundo hoje, entre os cristãos e não cristãos?

Grupo 3 -  Missão: anúncio que se traduz em palavras e gestos. 
a) Após ler o nº 21, você acha que a missão de ir e fazer discípulos, cabe a quem? Explique.
b) Leia o nº22 e responda: a quem devemos pedir ânimo para realizar a missão de Jesus Cristo? Por quê?
c) Quais os testemunhos pessoais presentes no Evangelho que lemos? Você acha que estas pessoas junto com Jesus viveram em comunidade? Como será que viviam?
d) Como podemos fazer brilhar ainda hoje a Palavra que Jesus nos deixou?
e) O que o nº 26 nos convida a viver e a praticar?

Grupo 4 - Comunidades eclesiais de missionários no contexto urbano.
a) O que você entende por cultura urbana? Cite alguns exemplos do que faz um lugar ser urbano.
b) Quais são os sofrimentos existentes nas grandes e pequenas cidades?
c) Como Jesus olharia, lembre-se do olhar dele para Simão, para as pessoas que vivem nesses lugares e que passam por esses sofrimentos?
d) Pelo Evangelho que leram, como deve-se agir com essas pessoas ao apresentá-las a Palavra de Deus, sobretudo, àquilo que é o contraste com essa Palavra?
e) Onde os missionários devem beber para conseguir dialogar nesse ambiente tão diverso?

OBS.: Pode-se fazer grupos com temas repetidos, o ideal é que sejam grupos de no máximo 5 pessoas, para propiciar a participação de todos.
Se o encontro ficar muito extenso, por causa da participação das pessoas, pode-se dispensar a plenária e o catequista faz a conclusão, ligando a leitura bíblica com o tema discutido pelos grupos.

Organize a plenária, com um representante de cada grupo para ler as perguntas (seria bom projetar) e explicar as respostas. O subitem 1.5 “ Comunidades eclesiais missionárias no contexto urbano”, deve ser apresentado pelos catequistas como uma conclusão da discussão. Estas Diretrizes foram elaboradas para ajudar a Igreja no Brasil a responder aos desafios evangelizadores em um país cada vez mais urbano. São desafios  humanos, religiosos, sociais e políticos, culturais e ambientais que atingem a todos, em todas as partes, indistintamente. “Como resposta inculturada a esses desafios, as Diretrizes destacam a centralidade das comunidades eclesiais missionárias, com a imagem da casa sustentada sobre pilares”.

COMPROMISSO
Colocar um fundo musical, bem intimista e pedir que no silêncio do coração, possam fazer um compromisso pessoal com Jesus Cristo na construção e anúncio do seu reino.

REVER
Entregar uma folha para avaliação do encontro, é sempre bom avaliar para crescer.
Que bom!
Que pena!
Que tal?

CELEBRAR
Pedir que rememorem a pergunta do início do encontro QUEM É JESUS PARA MIM? E que possa rezar, louvando e agradecendo a Deus pelo Jesus revelado em nosso encontro e que cada um possa em uma palavra dizer a resposta. Entrar com um cartaz bem grande com essa pergunta e colocar na frente do encontro.
Finalizar o encontro com o canto de abertura, Seu nome é Jesus Cristo e rezar o Pai Nosso de mãos dadas.

Valdiene Aparecida Gomes
Catequista na Paróquia Cristo Rei (EPAC) – Ipatinga/MG
Cursou a Formação de Coordenadores de Catequese – CNBB/Leste II
Cursou Bíblia em Comunidade – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE)
Professora da Rede Pública de Ensino e Mestra em Linguagens e Letramentos pela UFMG

Sites consultados
https://www.comshalom.org/que-estais-procurando-vinde-e-vede/
http://diegotales.blogspot.com/2011/06/

Referências Bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém (Ed. Revista). São Paulo: Paulus, 2004.
CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. Brasília: Edições CNBB, 2019.




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